Isto não é ciência - por Joice Massarra

Atualizado: 1 de Jun de 2020

A frase que é título deste texto, é clichê não é mesmo? Já falei. Já ouvi diversas vezes. Mas, com que base esta frase é citada? Por que diversas vezes ela soa como uma verdade absoluta e totalmente inquestionável em si? Simples, por que provavelmente eu, você e diversas pessoas já fez uso inapropriado da Ciência.



Para esclarecer isto, penso ser necessário clarificar Ciência. Encontrei diversas definições e usarei aqui a que mais me apeteceu. Segundo Fontes e Cardoso (2006), Ciência é o conjunto de conhecimentos obtidos através da observação de fenômenos, problematização destes, formulação de hipóteses para explicar o(s) problema(s) levantado(s), experimentação das hipóteses, comprovação ou descarte das hipóteses e demonstração destes dados para replicação e novas pesquisas. Complicado? Parece.


No entanto, posso demonstrar que você também é um(a) ‘cientista do cotidiano’, usando o método científico do parágrafo anterior. Pensa bem, caras e caros leitoras e leitores.

Em uma bela manhã florida, você acorda com uma vontade ávida de tomar banho. Ao ligar o chuveiro, percebe que não há água caindo em seu belo corpo. O que ocorreu aqui? Você observou um fenômeno – a ausência da água no chuveiro.

Logo, você problematiza, ou seja, formula um problema, uma questão – será que faltou água no bairro? A sua hipótese formulada é que houve um racionamento no bairro por problemas no encanamento, já que todas as suas contas estão pagas. O próximo passo? Confirmar sua hipótese. Você faz um ‘experimento’.

Liga para a Cia da água da sua cidade para saber o ocorrido e é informada(o) que sim, houve problemas no encanamento e que por isso, a transmissão da água fora interrompida por 24 horas. E, taran??!! Adivinha?! Você acabou de fazer ‘ciência’, rs.


Acabou de comprovar sua hipótese e se desejar pode espalhar pela vizinhança afora; afinal de contas, você teve comprovação do que acontecera (isso se a Cia de água realmente lhe contou a verdade, rs). Brincadeiras à parte, esta fora apenas uma ilustração sobre esta area maravilhosa de conhecimento. Agora que já batemos um papinho sobre Ciência, podemos falar sobre outros tópicos. Já trouxe minhas convicções espiritualistas no meio acadêmico e ouvi esta frase célebre que inicio este texto – ‘isto não é ciência.’ Várias vezes ouço que religião e ciência não se misturam, etc e tal.


Bom, primeiro desejo esclarecer que minhas convicções espiritualistas não dependem de evidências científicas. Acreditar num Ser que é a Fonte da Criação independe se a comunidade científica entrará em consenso ou não para legitimar este Ser verdadeiro. Penso que algo importante de ser questionado aí é justamente – se a Ciência não comprova, se não existem evidências científicas, o fenômeno não existe?

Existem diversos planetas, uns foram descobertos recentemente, outros ainda serão. O fato de não comprovar a existência deles, significa que eles não existem, ou que nossos instrumentos para comprovar sua existência ainda não são eficientes para tal? Em qualquer destas respostas, penso que dizer “isto ou aquilo não é ciência” pode ser bem ruim. Pode revelar uma nova ‘deusa’ no íntimo de quem pronuncia esta frase – a Ciência. Sim, nova deusa porque é tomada por muitos que não se aprofundam em sua base verdadeira – a dúvida, o questionamento; não a certeza imutável, ou verdade absoluta. Tal frase também pode soar soberba, colocando o conhecimento científico como único válido de confiança e descartando todos os outros.


Há várias formas de conhecimento, parceira e parceiro: Religioso, Filosófico, Empírico, etc e a Ciência é um deles, e sua base não é a certeza, mas sim a dúvida. Quem realmente pensa de acordo com o que a Ciência diz, está aberto a questionamentos – todo o tempo - quem fecha ideias dizendo estar coberto pelas evidências científicas de algo, está mais distante da Ciência do que imagina. E, assim como o conhecimento científico não deveria ser usado para dogmatizar nossas convicções ou ausência delas, por outro lado, determinar como generalizações as nossas experiências também não.


E o que quero dizer? Simples...! Seria anti-ético trazer convicções, experiências minhas como a verdade para diversas pessoas. Com base no que, posso afirmar que a Fonte da Criação existe? Posso dizer que ela existe para mim. No entanto, o que me questiono é – como distanciar espiritualidade dos estudos científicos já que questões espirituais perseguem a nossa história por milhares de anos e com milhares de pessoas em lugares diferentes do mundo?...

Observe bem as religiões. Pesquise um pouco delas... De alguma maneira perceberá similaridades muito interessantes. Observe que são culturas diferentes, povos diferentes, até em tempos completamente diferentes. Povos que nem sonhavam em se conhecer vivendo experiências muito parecidas. Será que todas estas pessoas estavam apenas imaginando tais fenômenos? Todas elas? Enfim... Ainda assim, mesmo que todas estas pessoas estivessem ‘viajando’, estes fenômenos não são curiosos o suficiente para serem estudados?

Fico extremamente feliz por uma gama de pessoas pensarem que sim e se debruçarem para olhar com cuidado para isso. Peres, Simão e Nasello (2007), também pensam que sim. Diferem espiritualidade e religiosidade e trazem tais temas como temas importantes em psicoterapia, devido a demanda crescente de clientes que desejam discutir tais assuntos com profissionais habilitados(as).


Definem religião como: “[...] um sistema organizado de crenças, práticas, rituais e símbolos projetados para auxiliar a proximidade do indivíduo com o sagrado e/ou transcendente e espiritualidade como uma busca pessoal de respostas sobre o significado da vida e o relacionamento com o sagrado e/ou transcendente.”


Definições que ao meu ver são coerentes e incríveis. E, quer saber? Penso que a Ciência não precisa validar tudo que pensamos e fazemos. Se comer manga com sal faz você passar por maus bocados, qual a necessidade de haver comprovação científica para isso? É necessário um estudo que diga: “Cientistas comprovam que comer manga verde com sal é maléfico para a saúde”? Seu conhecimento neste caso se baseia de forma empírica na sua experiência. Ela não é válida por que não é ‘Ciência’? Por outro lado, também é desnecessário que faças o contrário amiga e amigo... Se a manga verde com sal lhe trouxe malefícios, o máximo que seria ético dizer é – isto fez mal para mim. Não significa que fará para outras pessoas, nem sequer a maioria delas. Valorize o conhecimento empírico, sem precisar generalizar para todo o mundo, sem precisar que tenha comprovação por método científico para ser validado. Ele foi válido para você. Isso já importa.


O problema é que buscamos validação universal de nossas experiências e crenças, e quer saber? Isto não é necessário... Por que queremos tanto ter validação do que acreditamos? Pensa um pouco. Será que nosso ego (eu me ponho no meio, sim) é tão frágil e arrogante que quer validar todos os nossas experiências e crenças? Que necessidade é essa de demonstrar que ‘manga verde com sal faz mal para toda a humanidade’? Ou seja, aplicando aos conceitos espirituais e religiosos – que necessidade é essa de fazer com que o mundo acredite ou valide suas convicções? E, de outra maneira, que necessidade é essa de só acreditar no que há comprovação científica? Por acaso, este é o único conhecimento válido? Seu conhecimento empírico, baseado em suas experiências não servem para si mesmo? Observa a linha tênue em que nos metemos...!


Evidências científicas maciças ainda faltam para comprovar a existência de Deus, embora pesquisadores já arrisquem em fazê-lo com bases em algumas inferências de experimentos como a Dupla Fenda, por exemplo. Outras(os) se apoiam pela falta de evidências em dizer que Deus não existe, pois, a Ciência também não comprova isso. O que não pode ser ignorado, são os diversos dados trazendo que pessoas com experiências espiritualistas predizem mais saúde, demonstram maior longevidade, menor frequência de adoecimento e recuperação mais rápida de doenças; menor sensibilidade a dor, e tem mais sentido de vida e consequentemente sua QV (Qualidade de Vida) é maior que pessoas que não vivem tais experiências. Se há dados tão robustos, em diversas culturas diferentes, penso que isso deve se levado em consideração não? (PERES; SIMÃO; NASELLO; 2007; SELIGMAN, 2002).


Mas, enfim, de qualquer forma, a Ciência comprovando ou não a existência da Divindade, continuo confiando em meu conhecimento empírico sobre a Fonte da Criação. Ela existe para mim. Faz completo sentido para mim. E para você? Diz aí...!

Quem sou eu? Eu sou Joice Massarra, Dna do Criador na Terra.

Psicóloga (CRP 03/16817); Terapeuta Transpessoal, Escritora e Palestrante.

Referências: SELIGMAN, M. Felicidade Autêntica. Usando a nova Psicologia Positiva para a realização permanente. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002. 460 p. PERES, J.F.P.; SIMÃO, M.J.P.; NASELLO, A.G. Espiritualidade, religiosidade e psicoterapia. Revista Psiquiatria Clínica, 2007. Disponível em: < FONTES, A.; CARDOSO, A. Formação de professores de acordo com a abordagem Ciência/Tecnologia/Sociedade. Revista Electrónica de Enseñanza de las Ciencias. Vol. 5, nº 1, 2006. Disponível em: http://reec.webs.uvigo.es/volumenes/volumen5/ART2_Vol5_N1.pdf

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